Osmundo: Arte Maior

Osmundo Oliveira Teixeira Júnior
Nasceu em 1954, na cidade de Itabuna – Bahia – Brasil

A arte barrista de Osmundo eleva ao mais alto nível a imaginária sacra. O sacro é ancestral e é na ancestralidade que ser origina a universalidade das obras de arte em cerâmica. Todas as religiões deixaram um legado na estatuária, objetos que conforme cada região adquiriram nomenclaturas diversas, segundo as técnicas que vão desde a porcelana chinesa ao barro cozido egípcio, das cerâmicas esmaltadas orientais às terracotas renascentistas. Algumas técnicas foram guardadas durante séculos, como a porcelana, e outras são inaugurais dos primeiros instrumentos de trabalho do homem como o torno. Não há civilização que não passe pelo estado do meio disforme da argila para as mais sofisticadas transformações — atingindo a translucidez e leveza quase absoluta.

A arte brasileira da cerâmica situa-se no encontro dos mundos indígena – da pedra polida – e renascentista dos portugueses – a rastrear territórios em nome do mercantilismo e da fé. As imagens dos bustos relicários chegadas em Salvador ainda em 1563 antecipam em décadas a atuação do beneditino frei Agostinho da Piedade, que aprendera o ofício da modelagem no convento de Alcobaça em Portugal. A imaginária brasileira nasceria desta materialidade plástica, o barro, plasmado por seu discípulo frei Agostinho de Jesus.

Na formação do artista, a tradição é importante. Não tanto quanto na do artesão, que se esforça em continuar regras ancestrais. Osmundo foi até Portugal aprender seu ofício, expressões que antes já vira em toda a magnífica arte sacra baiana, em especial do século barroco dos setecentos. Precisamos então compreender a união dos mundos de Osmundo: sua origem no interior baiano e sua formação nos ambientes cultos da Bahia e Portugal. Mário de Andrade, lá no início do século XX, propunha um olhar de igualdade para as expressões ditas populares e cultas. Artesão e artista, dotados dos fazeres na produção da arte, da expressão, livre de rótulos classificatórios. Passado um século, as derivações desta questão continuam tênues.

No caso da arte de Osmundo, a superação desta fase talvez se dê quando se quer julgar uma peça de sua produção sob diretrizes apenas formais ou mesmo históricas. Porém, se ao invés de procurarmos a individualização ou mesmo nominação – um santo especifico, com uma vestimenta em rebuscada movimentação barroca – nós nos propusermos a uma visão global que se denominaria a obra, o discernimento poderia situar melhor o artista. Por obra se compreende o conjunto de uma vida produtiva, sequencial nas pesquisas com experimentos na busca da expressividade. Dividida em blocos, temas ou não, a obra caracateriza uma busca incessante por meio de determinada materialidade — que neste caso é a argila. Esclarecido isto, podemos pensar na obra de Osmundo e não em peças individualizadas.

Obra Maior

A pesquisa a que o artista se propõe é do uso da argila utilizando a plástica barroca, aliada ao espírito da religiosidade, porém objetivando a arte. A argila assim modelada pelo modelador trai sua formação erudita tanto pelos referenciais iconográficos quanto pelo métier artístico. Assim podemos falar não de maneira individualizada, mas generalizada, como metodologia do uso das linhas dos panejamentos, levando-os ao extremo e limites das ondulações. A rotundidade, em geral característica artesanal, desaparece na busca da espacialidade – mais marcante quando é apresentado um conjunto. As peças se conjugam não apenas na iconografia, mas em diálogos formais, ora internamente com as formas esvoaçantes, ora nos vazios provocados pelos distanciamentos, limites arquitetônicos gerando pesos e levezas nas composições.

As imagens dos santos ou orixás, individualizados, entregues ao simbólico de seus atributos, para mais fácil leitura do fruidor, são o artifício mais comum para passar sua mensagem. Os atributos foram confirmados nos estilos góticos, passando pelo renascimento, maneirismo e barroco. Dar esmola ao santo certo é prioridade, daí a iconográfica utilizada hodiernamente tendo em vista a perda devocional e de parte da memória religiosa. Um bastão, uma flor, um cordeiro ou mesmo um livro, são motivos de busca de espacialidade na feitura de suas obras e não o devocional já incutido no público que admira sua obra.

Quando o artista se emancipa na escolha do tema e esboça o desejo de ambientar a imagem em um retábulo, por exemplo, temos então que julgar suas imagens como um pesquisa. Esta pesquisa é interessante, pois o período da arte barrista erudita é do século 17 , e não do 18m como se apresentam suas madonas, imaculadas e meninos pastores à maneira oriental. Os retábulos em perspectiva e as figuras em escorço se mostram em dicotomias entre o monumental do mobiliário e a figuração simbólica dos seres santificados. A arquitetura se expande em minúcias, usuais da gramática ornamental, que exige um conhecimento prévio do fruidor, enquanto a imagem se avoluma na espacialidade simbólica do medieval. O uso abusivo das linhas ondulantes das vestimentas, na maioria das vezes oculta o encantador “S” medieval que toma conta de todo o espírito do santo retratado.

Este dualismo barroco x medieval que em outros termos se expressaria em corporalidade x espiritualidade, que no estilo barroco se exprimem nos momentos máximos entre a mortalidade e a imortalidade, as luzes e as sombras, na plástica de Osmundo se explicita entre a criação de obras perturbadas pela contemporaneidade, porém revestidas da historicidade. Ou melhor, o medieval como um mundo perdido de espiritualidade e do barroco renovado nesta pós-modernidade consumista dos referenciais da arte. É o neo- barroco em voga, ou ainda um barroco reinventado, atado à alma e cultura brasileiras. Assim, não se usufrui apenas de uma escultura com panejamentos sensuais atados a um corpo em “S” espiritualizado pelo seu status divinizado, mas sim de uma obra cultural plena de referenciais da arte universal.

Percival Tirapeli. Crítico da Associação Brasileira de Críticos de Artes (ABCA) e professor titular de História da Arte Brasileira da Universidade Estadual Paulista (UNESP). São Paulo, Advento de 2012.